Os cariocas
brincam o carnaval nas ruas: do entrudo à nova onda de blocos do Rio
Ranchos e grandes sociedades brilham nos anos 20 e
30. Em 2016, mais de 500 blocos fazem desfiles na cidade, entre eles o
tradicional Bola Preta, fundado em 1918
Fabio Ponso*
Todos os anos, milhões de pessoas no mundo inteiro acompanham o desfile
das escolas de samba do Rio de Janeiro, um dos maiores espetáculos do planeta.
Mas antes mesmo do surgimento das primeiras agremiações, o Rio já se destacava
por seu carnaval, com diversas manifestações organizadas e foliões anônimos
brincando nas ruas. Algumas dessas expressões populares, como os blocos de rua,
permanecem vivas, compondo outra forte vertente que sobreviveu no tempo e se
apresenta como face mais espontânea e democrática da folia carioca.
Na condição de capital desde 1793, o Rio de Janeiro foi, durante muitos
anos, o destino natural de imigrantes europeus e de grande contingente de
brasileiros livres e escravos. Com isso, a cidade desenvolveu uma vocação de
vitrine cultural, congregando manifestações populares de origens diversas,
entre elas o carnaval, que se tornou uma de suas principais marcas registradas.
O carnaval, como manifestação do “inconsciente coletivo”, não possui uma
origem datada historicamente. Segundo versão predominante na literatura sobre o
tema, os primórdios da festa estão situados nos ritos agrários pagãos da Europa
Antiga e Medieval. Para exaltar seus deuses e celebrar as colheitas da
primavera, diferentes povos promoviam festejos que duravam vários dias,
caracterizados por elementos que estão na essência do carnaval: a ironia, a
exaltação do grotesco, a fartura gastronômica, a permissividade sexual e a
inversão social. A Igreja Católica, que durante algum tempo tentou, sem
sucesso, reprimir os festejos populares, aos poucos passou a tolerar e até
mesmo estimular essas manifestações. Em 590 d.C., o papa Gregório I as
institucionalizou, incorporando-as ao calendário eclesiástico. A medida foi uma
forma de controle social, permitindo ao povo momentos de licenciosidade antes
do período de resguardo da Quaresma. Dessa institucionalização teria surgido,
inclusive, o nome definitivo da festa: ao transferir o início da Quaresma para
a Quarta-feira de Cinzas, Gregório I atribuiu ao domingo anterior o título de dominica ad carne levandas, termo que ao longo do tempo
teria derivado para “carnelevale”, e, finalmente, “carnaval”, que significa a
ação de “levar” ou “tirar a carne”.
Uma das “brincadeiras” carnavalescas mais antigas, o entrudo - que
consistia numa “guerra” entre foliões, que atiravam uns nos outros bisnagas ou
“limões” de cera, contendo desde ovos e farinha a urina e fezes -, chegou ao
Brasil no período colonial, trazido pelos portugueses. Reportagem do GLOBO de
12 de fevereiro de 2012 noticiou que, em 1553, no Engenho Camarajibe, perto de
Olinda (PE), já havia o registro de "uma terça-feira de entrudo"
antes da Quarta-feira de Cinzas. No Rio de Janeiro, o entrudo também foi a
primeira manifestação tipicamente carnavalesca que se teve registro. Em 1808, com
a chegada da Família Real, em meio à formação de uma nova elite e às ações no
sentido de modernizar a cidade, emergiram também formas mais “civilizadas” de
se brincar a folia, como os bailes de máscaras realizados nos clubes e salões,
à moda parisiense. Em meados do século XIX, o entrudo foi oficialmente
proibido, enquanto a tradição dos bailes se diversificou e se popularizou. Até
fins do século XX, algumas das principais atrações do carnaval carioca eram os
bailes dos clubes, ao som de marchinhas, e também os grandes bailes de gala,
como o do Teatro Municipal, com seus famosos concursos de fantasias.
Com as reformas urbanas do início do século XX, o espaço público se
transformou numa nova alternativa para os cariocas mais ricos também brincarem
o carnaval de forma “civilizada”. Assim, os foliões fantasiados, antes
restritos aos salões, ganharam as ruas, se divertindo de forma segura e
organizada. As novas avenidas, largas e iluminadas, testemunharam ainda o
surgimento dos corsos, que consistiam em desfiles de modernos carros abertos
transportando foliões que travavam entre si batalhas de confete, serpentina e
lança-perfume. Nessa época, as “grandes sociedades” carnavalescas - que reuniam
membros da elite e da população branca emergente da classe média e, desde o
século XIX, participavam ativamente da vida da cidade, influenciando em
questões políticas e sociais -, também passaram a marcar mais fortemente a sua
presença no carnaval de rua. Seus desfiles eram luxuosos, inspirados nos
carnavais clássicos de Nice, Roma e Veneza. As grandes sociedades permaneceram,
até a década de 40 do século XX, como uma das grandes atrações da folia
carioca. Com a incorporação dos carros alegóricos pelas escolas de samba,
perderam força, até deixarem de se apresentar, definitivamente, na década de
90.
Paralelamente ao “Grande Carnaval” da burguesia, grupos de indivíduos
das classes populares também desenvolveram novas formas de se expressar durante
a folia. A repressão ao entrudo fez surgir, ainda no século XIX, outras manifestações
do “Pequeno Carnaval”, como os cordões, ranchos e blocos. Com a legitimação da
rua como palco principal do carnaval, estas expressões populares passaram a
contar com maior aceitação social, passando a influenciar, de forma definitiva,
a evolução do carnaval carioca.
No século XIX, o termo “cordão” (e suas variações, como "bloco de
sujos" e "zé-pereira") era usado genericamente para designar os
agrupamentos, compostos em sua maior parte por negros e libertos, que brincavam
o carnaval ao som de músicas e instrumentos de origem africana em áreas
periféricas do Centro, como a Praça Onze e a zona portuária. Porém, no início
do século XX, começou a ser estabelecida uma distinção entre dois grupos
carnavalescos: de um lado, aqueles que se manifestavam de forma mais espontânea
e desorganizada, tidos como “primitivos” e violentos; de outro, os mais
estruturados, que se utilizavam de fantasias padronizadas, elementos da música
europeia e expressiva dramatização, tidos, assim, como comportados e
agradáveis. Os primeiros permaneceram sob a classificação de cordões, e,
discriminados, perderam força rapidamente. Já os grupos mais organizados
ganharam a designação de “ranchos”, se constituindo no primeiro elo entre os
carnavais erudito e popular.
Com a aceitação da classe média e a simpatia das autoridades, essas
agremiações rapidamente se espalharam pela cidade e passaram a exercer
protagonismo na festa, ganhando um concurso oficial. Após viverem seu apogeu
nos anos 20 e 30, os ranchos começaram a perder a sua força nos anos 50, com a
expansão das escolas de samba, que incorporaram vários de seus principais
elementos, como as comissões de frente, os casais de mestre-sala e
porta-estandarte, e as fantasias representativas de um enredo. O fim de seus
desfiles, assim como os das grandes sociedades, ocorreu na década de 90. No
final dos anos 60, as escolas de samba, com seus desfiles cada vez mais
organizados e luxuosos, já se encontravam consolidadas como marca principal do
carnaval do Rio e produto de exportação, atraindo a atenção da todas as camadas
sociais, a cobertura da mídia e a admiração de turistas estrangeiros. Nesse
contexto, os blocos de rua - situados hierarquicamente entre os cordões e os
ranchos, como uma espécie de versão mais pobre e jocosa destes útimos -
passaram a constituir a face mais democrática e espontânea da folia carioca,
não tardando, também, a congregar foliões de todas as classes sociais.
O mais antigo e famoso bloco do Rio de Janeiro é o Cordão da Bola Preta,
que tradicionalmente realiza o desfile de abertura da folia carioca na manhã do
sábado de carnaval, chegando a reunir mais de um milhão de pessoas nas ruas do
Centro da cidade. Sua fundação ocorreu em 1918, quando surgiu como uma espécie
de “pequena sociedade” carnavalesca. Nessa época, inúmeros blocos já se
apresentavam pela cidade em desfiles sem compromisso ou em concursos, como o
dos extintos banhos de mar à fantasia, que tiveram seu apogeu nos anos 20 e 30.
No entanto, muitos dos blocos fundados na primeira metade do século XX, nos bairros
do Centro e da Zona Norte do Rio, se agigantaram e se transformaram em escolas
de samba, enquanto outros, menos estruturados, desapareceram.
A tradição dos blocos de rua foi resgatada a partir da segunda metade da
década de 50, quando novas agremiações começaram a surgir com o propósito de
puro entretenimento, sem a intenção de aderir a concursos oficiais, sendo, por
isso, denominados de “blocos de embalo”. Entre eles estão o Bohêmios de Irajá
(criado em 13 de fevereiro de 1967), o pioneiro Bafo da Onça, do Catumbi -
fundado em 12 de dezembro de 1956 -, e o Cacique de Ramos (de 20 de janeiro de
1961), com destaque para estes dois últimos, que travaram uma histórica e
saudável rivalidade. Além de arrastarem dezenas de milhares de foliões aos seus
desfiles em seu período de apogeu (nos anos 60 e 70), constituíram-se como
celeiro onde foram revelados diversos nomes do samba e da música popular
brasileira.
Nessa época, enquanto o Centro da cidade se estabelecia definitivamente
como palco dos grandes desfiles de blocos e escolas de samba, o subúrbio
permanecia como núcleo de referência do “Pequeno Carnaval” de rua, com maior
diversidade de manifestações, como coretos, bailes populares, grupos de clóvis,
batalhas de confete diversas vertentes de blocos (de embalo, de enredo, das
“piranhas” ou de “sujos”). Entre eles, tornaram-se emblemáticos o Chave de
Ouro, do Engenho de Dentro, que tradicionalmente desfilava pelas ruas do bairro
na Quarta-feira de Cinzas, encerrando o carnaval; e o Bloco das Piranhas, de Madureira,
formado unicamente por homens travestidos de mulheres.
Do outro lado do túnel, a Zona Sul da cidade, a partir da fundação da
Banda de Ipanema, nos anos 60, foi gradativamente assumindo papel de
protagonismo no carnaval de rua do Rio. Criada pela turma do jornal
"Pasquim" e seus simpatizantes, em 1965, sob a bandeira da liberdade,
a Banda de Ipanema congregou inúmeros foliões e personagens ilustres em seus
desfiles. Além de ter impulsionado a criação do grande número de blocos e
bandas que passariam a se apresentar na Zona Sul, a banda foi um ícone no
movimento de resistência à ditadura militar e, posteriormente, nos anos 80, na
campanha pelas Diretas Já.
E foi justamente nesse contexto de enfraquecimento do regime militar e
luta pelo restabelecimento da democracia - que inspiraram no carioca maior
liberdade para expressar seu humor e irreverência -, que a Zona Sul foi palco
do surgimento de inúmeros blocos de rua, liderados, em sua maioria, por
artistas, intelectuais e produtores culturais de classe média. Mesclando poesia
e crítica social, muitos deles, como o Suvaco do Cristo e o Simpatia É Quase
Amor, fundados em 1985, conquistaram grande popularidade, atraindo multidões e
se constituindo em novas marcas registradas do carnaval carioca.
Após passar por um período de enfraquecimento, na primeira metade da
década de 90, sob forte concorrência da música baiana e da folia dos trios
elétricos, o carnaval de rua do Rio se revigorou nos anos 2000. Na esteira de
um movimento cultural de revalorização do samba e das tradições populares da
cidade, que teve a revitalizada da região da Lapa como núcleo irradiador, a
cidade foi testemunha de um fenômeno sem igual de multiplicação de blocos de
rua: em 2016, mais de 500 foram liberados oficialmente pela prefeitura para a
realização de seus desfiles, reunindo um público de 4,75 milhões de foliões. O
crescente número de blocos e sua concentração no Centro e na Zona Sul do Rio
têm exigido do poder público uma engenharia cada vez mais complexa no sentido
de evitar transtornos à cidade, como depredações, sujeira e engarrafamentos.
A popularidade dos blocos motivou O GLOBO a instituir, em 2011, o prêmio
Serpentina de Ouro (que, nesse primeiro ano, chamou-se Prêmio O GLOBO de
Blocos), com o objetivo de apontar a agremiação de maior destaque nos desfiles
pelas ruas do Rio e ainda o folião com a melhor fantasia. A partir de 2012, o
prêmio passou a contar com uma nova categoria, destinada a contemplar a musa
dos blocos. Disputando a premiação, além dos gigantes tradicionais, como o Bola
Preta, a Banda de Ipanema, o Simpatia e o Suvaco, figuram blocos como Escravos
da Mauá, Carmelitas, Céu na Terra, Cordão do Boitatá, Monobloco e outros tantas
“instituições” já incorporadas à cena cultural da cidade. Novas identidades,
novos frutos de uma tradição popular que se reinventa incessantemente, numa
“ofegante epidemia”, que se chama carnaval.
* com edição de Gustavo Villela, editor do Acervo O GLOBO
Leia mais sobre esse assunto em http://acervo.oglobo.globo.com/em-destaque/os-cariocas-brincam-carnaval-nas-ruas-do-entrudo-nova-onda-de-blocos-do-rio-20901782#ixzz4aAbWTVvO
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