quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

Sinhô na masemba, virou lundum, que virou maxixe, donde nasceu o SAMBA - 7 - autor: Jorge Eduardo Fontes Garcia

SINHÔ.
"...o que há de mais povo e de mais carioca tinha em Sinhô a sua personificação mais típica, mais genuína e mais profunda".
Manuel Bandeira, em "Crônicas da província do Brasil".
“ Sua contribuição para a música carnavalesca é magnífica. ”
Edigar de Alencar, em Nosso Sinhô Do Samba.

Creio que estabeleci na parte anterior a importância do Teatro de Revista para a divulgação das músicas dos sambistas, e em sendo assim vou falar de quem que dele – o Teatro de Revista- muito se aproveitou: SINHÔ

José Barbosa da Silva, mais conhecido como Sinhô, nasceu no Rio de Janeiro, 8 de setembro de 1888, e faleceu na Baia da Guanabara, a bordo da barca "Terceira", durante uma viagem entre o Centro do Rio e a Ilha do Governador, onde morava, em 4 de agosto de 1930.
Filho de um pintor, foi estimulado pela família a estudar flauta, piano e violão.
Autodidata, para tristeza do pai, que amava a flauta, se tornou, por volta de 1911, um razoável pianista profissional, atuando nos bailes do "Dragão Club Universal" e do "Grupo Dançante Carnavalesco Tome a Bença da Vovó", no  Rancho Ameno Resedá (que ajudou a fundar em 1907),  Fidalgos da Cidade (onde tocava com um grupo de choro que tinha Pixinguinha na flauta); Sociedade Dançante Carnavalesca Kananga do Japão (que o pai ajudou a fundar e que tinha o estandarte pintado por ele e onde foi diretor geral do grupo "As Sabinas da Kananga"), e em outras em sociedades dançantes e clubes carnavalescos da Cidade Nova.
“ Tocava também o cavaquinho”.,
Cantava, “ embora a voz não fosse muito grande, tinha muito ritmo”.
Como já afirmei era um autodidata e nunca conseguiu nada com a chamada “Escrita musical”, partitura não era com ele.
Era “pianeiro", nas palavras dos pianistas "eruditos" da época, mas “era considerado um pianista "interessantíssimo" que tocava de ouvido, pela maneira pessoal de criar levadas rítmicas incomuns. ”
Casou-se cedo, aos 17 anos, com a portuguesa Henriqueta Ferreira, com quem teve três filhos.
Um carioca frequentador da Casa de Tia Ciata, local de encontro de baianos, ou filhos de.
Tia Ciata morava na Praça 11, precisamente na rua Visconde de Itaúna, 117, que demarcava o lado sul da praça, demolida para a abertura da Avenida Presidente Vargas, quando um fato se deu em sua casa, "o berço do samba".
Numa roda de partido-alto os presentes dão sua contribuição, e não era diferente na casa de Tia Ciata, também, ela uma excepcional partideira.
Sinhô, João da Baiana, Pixinguinha, Hilário Jovino Ferreira fundador do Bloco "Ameno Resedá", entre outros, compuseram a música Roceiro, em 1916, que Donga registrou como Pelo telefone (ver artigo Pelo Telefone), fato que gerou, e gera, a maior polemica entre os amantes da MPB.
Em meio a terrível polemica Sinhô deu a primeira resposta para o charivari instalado, compôs uma “música discordante”, uma resposta em forma de samba, o Quem São Eles?, que se tornou um sucesso no Carnaval de 1918, mas tem um detalhe, Sinhô a publicou ( a primeira dele editada) com seu nome civil José Barbosa da Silva.
Vamos a letra de “Quem são eles? ”: 
A Bahia é terra boa
Ela lá e eu aqui - Yayá
Ai, ai, ai
Não era assim que meu bem chorava
Não precisa pedir eu que eu vou dar
Dinheiro não tenho mas vou roubar
Carreiro olha a canga do boi
Carreiro olha a canga do boi
Toma cuidado que o luar já se foi
Ai que o luar já se foi
Ai que o luar já se foi
O castelo é coisa à toa
Entretanto isso não tira - Yayá
Ai, ai, ai
É lá que a brisa respira
Não precisa pedir que eu vou dar
Dinheiro não tenho mas vou roubar
Quem são eles?
Quem são eles?
Diga lá e não se avexe - Yayá
Ai, ai, ai
São peixinhos de escabeche
Não precisa pedir que eu vou dar
O resto do caso pra que cantar
O melhor do luar já se foi
O melhor do luar já se foi
Entre menina que aqui estão de horror
Ai, que aqui estão de horror
Ai, que aqui estão de horror

Contudo esta resposta de Sinhô não foi do agrado dos frequentadores da casa de Tia Ciata, a maioria baianos como ela, pelas referências a Bahia - Ela lá e eu aqui – Yayá , Ai, ai, ai – na letra do samba de Sinhô.
A turma se queimou e Hilário Jovino Ferreira se fez ouvir com o “ Não és tão falado assim”.
Mais, veio a resposta de Donga, sem o Mauro de Almeida, com o samba “Fica Calmo que Aparece”.
Pixinguinha estrilou e com o irmão China compuseram o Já Te Digo, cuja letra está abaixo:

Um sou eu, e o outro não sei quem é
Um sou eu, e o outro não sei quem é
Ele sofreu pra usar colarinho em pé
file sofreu pra usar colarinho em pé
Vocês não sabem quem é ele, pois eu vos digo
Vocês não sabem quem é ele, pois eu vos digo
Ele é um cabra muito feio, que fala sem receio
Não tem medo de perigo
Ele é um cabra muito feio, que fala sem receio
Não tem medo de perigo
Um sou eu, e o outro não sei quem é
Um sou eu, e o outro não sei quem é
Ele sofreu pra usar colarinho em pé
Ele sofreu pra usar colarinho em pé
Ele é alto, magro e feio
É desdentado
Ele é alto, magro e feio
É desdentado
Ele fala do mundo inteiro
E já está avacalhado no Rio de Janeiro
Ele fala do mundo inteiro
E já está avacalhado no Rio de Janeiro
Vocês não sabem quem é ele, pois eu vos digo
Vocês não sabem quem é ele, pois eu vos digo
Ele é um cabra muito feio, que fala sem receio
Não tem medo de perigo
Ele é um cabra muito feio, que fala sem receio
Não tem medo de perigo

“Como resposta Sinhô escreveu "O pé de anjo", inspirada na valsa francesa Genny e cuja letra criticava os avantajados pés de China. ”
Existe, também, uma resposta ao Donga do grupo descontente cuja letra é “ Tomara que tu apanhes/ Pra não tornar a fazer isso/ Escrever o que é dos outros/ Sem olhar o compromisso".
E a coisa continuou através dos chamados “sambas resposta", mas o notável é que esses sambistas davam respostas, criavam diálogos entre si com sambas notáveis, que é um prazer ouvir até hoje, até os nossos dias.
Por causa dessa polemica, Sinhô se afastou da Casa de Tia Ciata, e segundo as palavras novamente de seu biógrafo Edigar Alencar, "toma gosto pela composição e pelas brigas", no livro “Nosso Sinhô Do Samba”.
E “ organizou um grupo que tinha flauta, trombone, violão, cavaquinho, ganzá, pandeiro e reco-reco e deu-lhe o nome de “Quem São Eles? ” nome de seu ‘samba resposta”.
Sua postura divergente contribuiu para a urbanização definitiva do samba, e aplainou o caminho da profissionalização dos sambistas.
Gostaria de chamar atenção para o antológico samba de Sinhô chamado de “ Três macacos no beco", numa referência a Pixinguinha, Donga e China.
Sinhô era peitudo, gostava de polemizar, gostava de fazer sátiras, e “ quando compôs “Fala Baixo”, em 1921, uma brincadeira com o presidente Artur Bernardes, “apelidado de Rolinha por alguns jornais cariocas. Os versos "Quero te ouvir cantar/ Vem cá, rolinha, vem cá/ Vem para nos salvar" o obrigaram a esconder-se da perseguição policial, por um tempo, na casa de sua mãe, no subúrbio carioca de Engenho de Dentro”.
Por ser viciado em Bordel ganhou fama de farrista, e era.
Na parte anterior transcrevi um texto de alguém que afirmou que ele se auto intitulou “ O Rei do Samba”, mas não é verdade, pois recebeu tal título, tão ao gosto dos luso-brasileiros, durante a "Noite Luso-Brasileira", realizada no Teatro República, em 1927.
É bem verdade que é considerado “ importante figura na história do teatro musicado do Rio de Janeiro, sendo pioneiro ao compor sambas para várias "revistas", gênero de teatro muito popular no Brasil”.
“O "Quem são eles?", foi apresentado na revista "A Bahia é terra boa", de Cândido de Castro e Luís Rocha, apresentada no Teatro República”.
Nesse mesmo ano “o samba "Confessa, meu bem", foi cantado na revista "É de Ban-Ban-Ban', de Rego Barros e Carlos Bitencourt, apresentada também no Teatro República”.
Um só compositor em duas peças de Teatro fato até então nunca ocorrido.
Sucesso no “ No carnaval de 1920, obteve grande sucesso com as marchinhas "Fala, meu louro", uma sátira a Rui Barbosa”, um baiano chato.
"O pé de anjo" inspirou Cardoso de Menezes e Carlos Bittencourt, que, aproveitando o sucesso da marchinha, estrearam uma peça de mesmo nome, em 1920, no Teatro São José.
"Papagaio louro" deu nome a uma revista dos Irmãos Quintilhiano apresentada no Teatro São José.
Quem é bom já nasce feito", de Cardoso de Menezes e Carlos Bittencourt, levada à cena no teatro São José.
Em 1921, musicou a revista "Vou me benzê", de J. Miranda.
"Não posso me amofinar", grande sucesso no carnaval do ano seguinte, foi lançado na revista do mesmo nome, de Henrique Júnior, apresentada no teatro Recreio.
Em 1922, teve músicas incluídas nas revistas "Sai da raia"; "Custe o que custar"; "Pé de pilão" e "Meu bem não chora".
Em 1926, fez sucesso nas revistas "Café com leite", de Freire Júnior com músicas suas apresentadas no Teatro São José.
A "Quem fala de nós...", de Correia da Silva e M. M. Pinho, na qual fez parceria nas músicas com o maestro Freitinhas.
"Paulista de Macaé", de Luís Peixoto e Marques Porto, quando foi lançado o samba "Não quero saber mais dela" .
Em 1928 teve músicas incluídas em onze revistas musicais, com destaque para "Língua de sogra", de Freire Júnior, na qual foram lançadas suas músicas para o carnaval daquele ano, e "Microlândia", revista de Luís Peixoto, Marques Porto e Afonso de Carvalho na qual foi lançada por Aracy Cortes o seu maior sucesso, o samba "Jura".
Em 1929 teve músicas incluídas nas revistas "A Dorinha é da fuzarca", de Gastão Tojeiro, e "Às armas", de Freire Júnior e Luiz Iglézias.
Cantores:
Em 1928, ministrou aulas de violão a Mário Reis, aristocrata carioca, sobrinho do Dr. Guilherme da Silveira - Manuel Guilherme da Silveira Filho (Rio de Janeiro, 7 de fevereiro de 1882 — Rio de Janeiro, 5 de novembro de 1974). Foi ministro da Fazenda no governo de Eurico Gaspar Dutra, de 10 de junho de 1949 a 31 de janeiro de 1951 - que se tornaria o seu intérprete preferido e que lançaria dois dos seus maiores sucessos: Jura e Gosto Que Me Enrosco.
A Banda Grupo dos Africanos gravou os sambas "Alivia estes olhos" e "Canção roceira".
Bahiano gravou os sambas carnavalescos "Pegue na cartilha”, "Cabeça inchada”, “Macumba Gegê" e "Vida apertada".
Fernando gravou os maxixe "Dor de cabeça" e "Caneca de couro".
A Jazz Band Sul-Americano, de Romeu Silva gravou a marcha-carnavalesca "Não sou bau".
Pedro Celestino, irmão de Vicente Celestino gravou a marcha "Ó Rosa" e o samba "Quem fala de mim tem paixão".
Artur Castro o samba "Papagaio no poleiro".
A American Jazz Band Sílvio de Souza gravou o maxixe "Viva a Penha", em cujas festas Sinhô tocava.
Albertino Rodrigues a canção "Saudade da choça".
Em 1927 compôs "Ora vejam só" e "A Favela vai abaixo" para criticar o plano do Prefeito Prado Júnior de derrubar o Morro da Favela, no centro do Rio.  
Francisco Alves gravou com grande sucesso o maxixe "Cassino maxixe" e o samba "Ora vejam só".
E outras musicas....
Compôs o último samba, O Homem da Injeção, em julho de 1930, um mês antes de sua morte, no entanto a letra e a melodia deste samba desapareceram misteriosamente, não chegando ao conhecimento do público.
No Bairro do Catumbi, o compositor tinha um coreto com piano, erguido especialmente para ele tocar no carnaval, em 1927, passou a tocar na Casa Carlos Wehrs. 
Apesar do título, foi acusado várias vezes de plagiar sambas alheios.
Heitor dos Prazeres ameaçou o compositor de processá-lo, reivindicando a autoria parcial de "Ora vejam só" e de "Gosto que me enrosco".
Como "troco", Heitor compôs "Olha ele, cuidado" e de "Rei dos meus sambas", que Sinhô tentou impedir que fossem gravados.
Um tempo depois Heitor conseguiria obter a indenização de 38 mil réis, pagos em prestações, por "Gosto que me enrosco".
Tais disputas não abalaram seu prestígio e na época justificou seus "métodos de compor" com a famosa frase: "Samba é como passarinho, é de quem pegar...".
Fez amizades influentes, a partir dos encontros com intelectuais na casa do escritor Álvaro Moreira.
Isso não impediu que continuasse frequentando o terreiro de macumba do negro Assumano (Henrique Assumano Mina do Brasil - Príncipe dos Alufás - pai espiritual a quem submetia suas produções antes de levá-las ao editor)”.

Fonte: http://www.dicionariompb.com.br/sinho/dados-artisticos

Morreu em decorrência da tuberculose.

Seu velório e funeral foram descritos com tintas literárias por Manuel Bandeira. Foi sepultado no Cemitério do Caju.



Nenhum comentário:

Postar um comentário