SINHÔ.
"...o que há de mais povo e de mais
carioca tinha em Sinhô a sua personificação mais típica, mais genuína e mais
profunda".
Manuel Bandeira, em "Crônicas da
província do Brasil".
“ Sua contribuição para a música carnavalesca
é magnífica. ”
Edigar de Alencar, em Nosso Sinhô Do Samba.
Creio que
estabeleci na parte anterior a importância do Teatro de Revista para a
divulgação das músicas dos sambistas, e em sendo assim vou falar de quem que
dele – o Teatro de Revista- muito se aproveitou: SINHÔ
José Barbosa da Silva, mais conhecido como Sinhô, nasceu no Rio de
Janeiro, 8 de setembro de 1888, e faleceu na Baia da Guanabara, a bordo da barca
"Terceira", durante uma viagem entre o Centro do Rio e a Ilha do
Governador, onde morava, em 4 de agosto de 1930.
Filho de um pintor, foi estimulado pela família a estudar flauta, piano
e violão.
Autodidata, para tristeza do pai, que amava a flauta, se tornou, por
volta de 1911, um razoável pianista profissional, atuando nos bailes do
"Dragão Club Universal" e do "Grupo Dançante Carnavalesco Tome a
Bença da Vovó", no Rancho Ameno
Resedá (que ajudou a fundar em 1907), Fidalgos da Cidade (onde tocava com um grupo
de choro que tinha Pixinguinha na flauta); Sociedade Dançante Carnavalesca
Kananga do Japão (que o pai ajudou a fundar e que tinha o estandarte pintado
por ele e onde foi diretor geral do grupo "As Sabinas da Kananga"), e
em outras em sociedades dançantes e clubes carnavalescos da Cidade Nova.
“ Tocava também o cavaquinho”.,
Cantava, “ embora
a voz não fosse muito grande, tinha muito ritmo”.
Como já afirmei
era um autodidata e nunca conseguiu nada com a chamada “Escrita musical”,
partitura não era com ele.
Era “pianeiro",
nas palavras dos pianistas "eruditos" da época, mas “era considerado
um pianista "interessantíssimo" que tocava de ouvido, pela maneira
pessoal de criar levadas rítmicas incomuns. ”
Casou-se cedo, aos 17 anos, com a portuguesa Henriqueta Ferreira, com
quem teve três filhos.
Um carioca frequentador da Casa de Tia Ciata, local de encontro de
baianos, ou filhos de.
Tia Ciata morava
na Praça 11, precisamente na rua Visconde de Itaúna, 117, que demarcava o lado
sul da praça, demolida para a abertura da Avenida Presidente Vargas, quando um
fato se deu em sua casa, "o berço do samba".
Numa roda de
partido-alto os presentes dão sua contribuição, e não era diferente na casa de
Tia Ciata, também, ela uma excepcional partideira.
Sinhô, João da
Baiana, Pixinguinha, Hilário Jovino Ferreira fundador do Bloco "Ameno
Resedá", entre outros, compuseram a música Roceiro, em 1916, que Donga
registrou como Pelo telefone (ver artigo Pelo Telefone), fato que gerou, e
gera, a maior polemica entre os amantes da MPB.
Em meio a
terrível polemica Sinhô deu a primeira resposta para o charivari instalado,
compôs uma “música discordante”, uma resposta em forma de samba, o Quem São
Eles?, que se tornou um sucesso no Carnaval de 1918, mas tem um detalhe, Sinhô
a publicou ( a primeira dele editada) com seu nome civil José Barbosa da Silva.
Vamos a letra de
“Quem são eles? ”:
A Bahia é terra boa
Ela lá e eu aqui - Yayá
Ai, ai, ai
Não era assim que meu bem chorava
Não precisa pedir eu que eu vou dar
Dinheiro não tenho mas vou roubar
Carreiro olha a canga do boi
Carreiro olha a canga do boi
Toma cuidado que o luar já se foi
Ai que o luar já se foi
Ai que o luar já se foi
O castelo é coisa à toa
Entretanto isso não tira - Yayá
Ai, ai, ai
É lá que a brisa respira
Não precisa pedir que eu vou dar
Dinheiro não tenho mas vou roubar
Quem são eles?
Quem são eles?
Diga lá e não se avexe - Yayá
Ai, ai, ai
São peixinhos de escabeche
Não precisa pedir que eu vou dar
O resto do caso pra que cantar
O melhor do luar já se foi
O melhor do luar já se foi
Entre menina que aqui estão de horror
Ai, que aqui estão de horror
Ai, que aqui estão de horror
Contudo esta resposta de Sinhô não foi do agrado dos frequentadores da
casa de Tia Ciata, a maioria baianos como ela, pelas referências a Bahia - Ela
lá e eu aqui – Yayá , Ai, ai, ai – na letra do samba de Sinhô.
A turma se
queimou e Hilário Jovino Ferreira se fez ouvir com o “ Não és tão falado
assim”.
Mais, veio a resposta de Donga, sem o Mauro de Almeida, com o samba “Fica
Calmo que Aparece”.
Pixinguinha estrilou
e com o irmão China compuseram o Já Te Digo, cuja letra está abaixo:
Um sou eu, e o
outro não sei quem é
Um sou eu, e o
outro não sei quem é
Ele sofreu pra
usar colarinho em pé
file sofreu pra
usar colarinho em pé
Vocês não sabem
quem é ele, pois eu vos digo
Vocês não sabem
quem é ele, pois eu vos digo
Ele é um cabra
muito feio, que fala sem receio
Não tem medo de
perigo
Ele é um cabra
muito feio, que fala sem receio
Não tem medo de
perigo
Um sou eu, e o
outro não sei quem é
Um sou eu, e o
outro não sei quem é
Ele sofreu pra
usar colarinho em pé
Ele sofreu pra
usar colarinho em pé
Ele é alto, magro
e feio
É desdentado
Ele é alto, magro
e feio
É desdentado
Ele fala do mundo
inteiro
E já está
avacalhado no Rio de Janeiro
Ele fala do mundo
inteiro
E já está
avacalhado no Rio de Janeiro
Vocês não sabem
quem é ele, pois eu vos digo
Vocês não sabem
quem é ele, pois eu vos digo
Ele é um cabra
muito feio, que fala sem receio
Não tem medo de
perigo
Ele é um cabra
muito feio, que fala sem receio
Não tem medo de
perigo
“Como resposta
Sinhô escreveu "O pé de anjo", inspirada na valsa francesa Genny e
cuja letra criticava os avantajados pés de China. ”
Existe, também,
uma resposta ao Donga do grupo descontente cuja letra é “ Tomara que tu
apanhes/ Pra não tornar a fazer isso/ Escrever o que é dos outros/ Sem olhar o
compromisso".
E a coisa
continuou através dos chamados “sambas resposta", mas o notável é que esses
sambistas davam respostas, criavam diálogos entre si com sambas notáveis, que é
um prazer ouvir até hoje, até os nossos dias.
Por causa dessa
polemica, Sinhô se afastou da Casa de Tia Ciata, e segundo as palavras
novamente de seu biógrafo Edigar Alencar, "toma gosto pela composição e
pelas brigas", no livro “Nosso Sinhô Do Samba”.
E “ organizou um grupo que tinha flauta, trombone, violão, cavaquinho,
ganzá, pandeiro e reco-reco e deu-lhe o nome de “Quem São Eles? ” nome de seu
‘samba resposta”.
Sua postura divergente
contribuiu para a urbanização definitiva do samba, e aplainou o caminho da
profissionalização dos sambistas.
Gostaria de
chamar atenção para o antológico samba de Sinhô chamado de “ Três macacos no
beco", numa referência a Pixinguinha, Donga e China.
Sinhô era peitudo, gostava de polemizar, gostava de fazer sátiras, e “ quando
compôs “Fala Baixo”, em 1921, uma brincadeira com o presidente Artur Bernardes,
“apelidado de Rolinha por alguns jornais cariocas. Os versos "Quero te
ouvir cantar/ Vem cá, rolinha, vem cá/ Vem para nos salvar" o obrigaram a
esconder-se da perseguição policial, por um tempo, na casa de sua mãe, no
subúrbio carioca de Engenho de Dentro”.
Por ser viciado em Bordel ganhou fama de farrista, e era.
Na parte anterior
transcrevi um texto de alguém que afirmou que ele se auto intitulou “ O Rei do
Samba”, mas não é verdade, pois recebeu tal título, tão ao gosto dos
luso-brasileiros, durante a "Noite Luso-Brasileira", realizada no
Teatro República, em 1927.
É bem verdade que é considerado “ importante figura na história do
teatro musicado do Rio de Janeiro, sendo pioneiro ao compor sambas para várias
"revistas", gênero de teatro muito popular no Brasil”.
“O "Quem são
eles?", foi apresentado na revista "A Bahia é terra boa", de
Cândido de Castro e Luís Rocha, apresentada no Teatro República”.
Nesse mesmo ano “o
samba "Confessa, meu bem", foi cantado na revista "É de
Ban-Ban-Ban', de Rego Barros e Carlos Bitencourt, apresentada também no Teatro
República”.
Um só compositor
em duas peças de Teatro fato até então nunca ocorrido.
Sucesso no “ No
carnaval de 1920, obteve grande sucesso com as marchinhas "Fala, meu
louro", uma sátira a Rui Barbosa”, um baiano chato.
"O pé de
anjo" inspirou Cardoso de Menezes e Carlos Bittencourt, que, aproveitando
o sucesso da marchinha, estrearam uma peça de mesmo nome, em 1920, no Teatro
São José.
"Papagaio
louro" deu nome a uma revista dos Irmãos Quintilhiano apresentada no
Teatro São José.
Quem é bom já nasce feito", de Cardoso de Menezes e Carlos
Bittencourt, levada à cena no teatro São José.
Em 1921, musicou a revista "Vou me benzê", de J. Miranda.
"Não posso me amofinar", grande sucesso no carnaval do ano
seguinte, foi lançado na revista do mesmo nome, de Henrique Júnior, apresentada
no teatro Recreio.
Em 1922, teve
músicas incluídas nas revistas "Sai da raia"; "Custe o que
custar"; "Pé de pilão" e "Meu bem não chora".
Em 1926, fez
sucesso nas revistas "Café com leite", de Freire Júnior com músicas suas
apresentadas no Teatro São José.
A "Quem fala
de nós...", de Correia da Silva e M. M. Pinho, na qual fez parceria nas
músicas com o maestro Freitinhas.
"Paulista de
Macaé", de Luís Peixoto e Marques Porto, quando foi lançado o samba
"Não quero saber mais dela" .
Em 1928 teve
músicas incluídas em onze revistas musicais, com destaque para "Língua de
sogra", de Freire Júnior, na qual foram lançadas suas músicas para o
carnaval daquele ano, e "Microlândia", revista de Luís Peixoto, Marques
Porto e Afonso de Carvalho na qual foi lançada por Aracy Cortes o seu maior
sucesso, o samba "Jura".
Em 1929 teve
músicas incluídas nas revistas "A Dorinha é da fuzarca", de Gastão
Tojeiro, e "Às armas", de Freire Júnior e Luiz Iglézias.
Cantores:
Em 1928,
ministrou aulas de violão a Mário Reis, aristocrata carioca, sobrinho do Dr.
Guilherme da Silveira - Manuel Guilherme
da Silveira Filho (Rio de Janeiro, 7 de fevereiro de 1882 — Rio de Janeiro, 5
de novembro de 1974). Foi ministro da Fazenda no governo de Eurico Gaspar
Dutra, de 10 de junho de 1949 a 31 de janeiro de 1951 - que se tornaria o
seu intérprete preferido e que lançaria dois dos seus maiores sucessos: Jura e
Gosto Que Me Enrosco.
A Banda Grupo dos
Africanos gravou os sambas "Alivia estes olhos" e "Canção
roceira".
Bahiano gravou os
sambas carnavalescos "Pegue na cartilha”, "Cabeça inchada”, “Macumba
Gegê" e "Vida apertada".
Fernando gravou
os maxixe "Dor de cabeça" e "Caneca de couro".
A Jazz Band
Sul-Americano, de Romeu Silva gravou a marcha-carnavalesca "Não sou
bau".
Pedro Celestino,
irmão de Vicente Celestino gravou a marcha "Ó Rosa" e o samba
"Quem fala de mim tem paixão".
Artur Castro o
samba "Papagaio no poleiro".
A American Jazz
Band Sílvio de Souza gravou o maxixe "Viva a Penha", em cujas festas
Sinhô tocava.
Albertino
Rodrigues a canção "Saudade da choça".
Em 1927 compôs
"Ora vejam só" e "A Favela vai abaixo" para criticar o
plano do Prefeito Prado Júnior de derrubar o Morro da Favela, no centro do Rio.
Francisco Alves
gravou com grande sucesso o maxixe "Cassino maxixe" e o samba
"Ora vejam só".
E outras
musicas....
“ Compôs o último samba, O Homem da Injeção,
em julho de 1930, um mês antes de sua morte, no entanto a letra e a melodia
deste samba desapareceram misteriosamente, não chegando ao conhecimento do
público.
No Bairro do Catumbi, o compositor tinha um
coreto com piano, erguido especialmente para ele tocar no carnaval, em 1927,
passou a tocar na Casa Carlos Wehrs.
Apesar do título, foi acusado várias vezes de
plagiar sambas alheios.
Heitor dos Prazeres ameaçou o compositor de
processá-lo, reivindicando a autoria parcial de "Ora vejam só" e de
"Gosto que me enrosco".
Como "troco", Heitor compôs
"Olha ele, cuidado" e de "Rei dos meus sambas", que Sinhô
tentou impedir que fossem gravados.
Um tempo depois Heitor conseguiria obter a
indenização de 38 mil réis, pagos em prestações, por "Gosto que me
enrosco".
Tais disputas não abalaram seu prestígio e na
época justificou seus "métodos de compor" com a famosa frase:
"Samba é como passarinho, é de quem pegar...".
Fez amizades influentes, a partir dos
encontros com intelectuais na casa do escritor Álvaro Moreira.
Isso não impediu que continuasse frequentando
o terreiro de macumba do negro Assumano (Henrique Assumano Mina do Brasil -
Príncipe dos Alufás - pai espiritual a quem submetia suas produções antes de
levá-las ao editor)”.
Fonte:
http://www.dicionariompb.com.br/sinho/dados-artisticos
Morreu em
decorrência da tuberculose.


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